andam também os mortos

Instalação Ciberliterária sobre Memórias



“De muitos já nem sei o nome. Passaram no tropel dos mortos. Ficou-me um olhar impresso, o calor da tua mão na minha mão. Mais nada. Como te chamas tu? Por mais esforços que faça não me lembro. Entre nós interpôs-se esta coisa monstruosa que se chama o tempo!
Raul Brandão, Memórias II (1925)


A versão online de andam também os mortos: Paisagens Ciberliterárias sobre Memórias prolonga no espaço digital a instalação apresentada no CAAA, em Guimarães, entre 1 de novembro e 31 de dezembro de 2025 (no centenário de Memórias II (1925–2025), de Raul Brandão).

Mantendo o gesto colaborativo do projeto original, desenvolvido a partir de oficinas com a comunidade de Nespereira e alunos da Escola Secundária Francisco de Holanda, a presente iteração recria um arquivo sensorial e interativo, onde o texto, o som e a imagem se reencontram como fragmentos de uma paisagem em recomposição.

Não se trata de uma simples documentação da instalação, mas de uma obra autónoma, concebida para ser explorada em ambiente digital. Através de uma interface que combina escrita e deriva audiovisual, o leitor é convidado a recombinar memórias de Brandão com memórias de hoje, num contínuo processo de transformação e reinscrição.

O seu percurso desenvolve-se em quatro movimentos, entre a palavra e a imagem, entre o humano e o maquínico:

Reescrever: Dez grupos de alunos da Escola Secundária Francisco de Holanda retextualizaram passagens de Memórias II, de Raul Brandão, em contexto de oficina de escrileitura, transformando-as em novas vozes sobre o tempo, a terra e o trabalho.

Ver: Os dez grupos de alunos visitaram Nespereira, vila onde Brandão viveu entre 1912-1930, levando uma máquina fotográfica analógica descartável. A cada grupo coube um só disparo: uma fotografia única, em correspondência com a memória reescrita.

Mover: As dez fotografias, digitalizadas, foram animadas através de prompts no Midjourney, concebidos a partir das mesmas memórias. O que era fixo começou a respirar: o vento, a luz, a água, a paisagem voltou a mover-se.

Recombinar: No ambiente digital da instalação e desta versão online, as palavras regressam como matéria viva. A interface gera textos em variação contínua, combinando excertos das memórias retextualizadas com uma base de dados de vozes recolhidas na comunidade de Nespereira.

Cada fase é uma forma de reinscrição: da voz à imagem, do gesto ao código, da lembrança ao presente.


Ficha Técnica

Conceção: d1g1t0_indivíduo_coletivo [Diogo Marques + João Santa Cruz]
Colaboração artística: Ana Clara Roberti, Pedro Bastos
Oficinas de escrileitura: Diogo Marques
Programação e sonoplastia: João Santa Cruz
Animações e sínteses visuais: Valter Nunes Ramos, midjourney_Musa art€ficial

Agradecimentos: Maria Luís Neiva, Ricardo Areias, CAAA Guimarães, Comunidade de Nespereira, Jorge Pereira, Celeste Pinto, Idálio Oliveira, João Ribeiro, Pedro Ribeiro, Beatriz Ribeiro, Manuel Roque, Estrela Figueiredo, Beatriz Roque, Teresa Roque, Ana Clara Roberti, Professora Fernanda Freitas e Alunos da Escola Secundária Francisco de Holanda – Turma 11 LH4 (2024/2025).

Logos institucionais

Este projeto foi parcialmente desenvolvido no âmbito das atividades de investigação do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa (UID/500/2025), do CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória (UID/4059/2025) e do CODA – Centre for Digital Culture and Innovation, unidade financiada por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia.